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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

O Racismo no Brasil 1

Pesquisa do Ipea derruba, com dados, o mito da democracia racial e mostra que mulheres negras sofrem duplo preconceito




ANDRÉ AUGUSTO CASTRO
Editor da UnB Agência

CRISTIANE BONFANTI
Estagiária da UnB Agência

Construído ao longo dos séculos, o conceito de democracia racial no Brasil se mostra, na verdade, uma grande mentira. Os dados da segunda edição da pesquisa Retratos da Desigualdade, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), mostram isso de forma clara. O estudo foi divulgado na tarde de segunda-feira, 25 de setembro, na Universidade de Brasília.


As pesquisadoras Luana Pinheiro, do Ipea e Vera Soares, do Unifem, constataram que o preconceito está presente em vários aspectos do cotidiano, inclusive na saúde. Ele faz com que 44,5% das mulheres negras nunca tenham feito o exame clínico de mama, capaz de identificar o câncer em estágios iniciais. A porcentagem de mulheres brancas que nunca tiveram acesso a essa medida profilática é bem menor: 27,3%.



O estudo foi feito com base no banco de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que já mostra desigualdades entre a população brasileira. O foco dos trabalhos foi concentrado nas questões de raça e gênero e a metodologia utilizada permitiu identificar uma hierarquia social que coloca os homens brancos no topo, seguidos por mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que sofrem dupla discriminação: de raça e gênero.

SALÁRIO BAIXO - A pesquisa mostra que, se não houver ações voltadas à reversão do atual quadro de exclusão social na educação, as diferenças raciais tendem a se perpetuar. A média de estudo entre os brasileiros brancos é de 7,7 anos, contra 5,8 anos para os negros. Mas as diferenças não param por aí. Apesar de ter registrado redução de 1993 a 2004, ainda há um abismo entre negros e brancos no índice de analfabetismo: 16% dos negros maiores de 15 anos são analfabetos, enquanto o problema atinge apenas 7% dos brancos na mesma faixa etária.

No mercado de trabalho, por exemplo, a situação de negros e mulheres em praticamente todos os indicadores analisados piorou, embora elas tenham, em média, um ano a mais de estudo do que os homens. Os dados evidenciam ainda a dupla discriminação que atinge as mulheres negras. Vítimas do racismo e do sexismo, elas ocupam os piores postos de trabalho, recebem os menores rendimentos e sofrem com as relações informais (como a falta de carteira assinada). Enquanto o salário médio mensal das mulheres brancas foi de R$ 561,70, o das negras ficou na casa de R$ 290,50, pouco menos que a metade. Entre os homens a diferença também é gritante: média de R$ 931,50 para homens brancos e de R$ 450,70 para negros.

METODOLOGIA - Esses dois fatores afetam diretamente a distribuição de renda. Entre os 10% mais pobres da população, 71% são negros. Enquanto isso, no topo da pirâmide (na fatia 1% mais rica), apenas 11,3% são negros. As desigualdades que se acumulam no acesso à educação e no mercado de trabalho são refletidas, por exemplo, no sistema previdenciário. A população negra que chega à idade de se aposentar não consegue fazer isso porque teve trabalho mais precário ou informal e acaba obrigada a continuar trabalhando. “É uma trajetória que começa desigual na escola e segue assim até a aposentadoria”, lamenta a coordenadora da pesquisa, Luana Pinheiro.

Ela explica que, para chegar à discriminação, as abordagens foram feitas com controle: a análise avaliou populações nas mesmas condições de escolaridade, região e renda, por exemplo. “Uma parcela das desigualdades existentes eram devidas à discriminação e não poderia ser explicada por nenhum outro fator observável”, aponta Luana. Os dados foram trabalhados no período entre 1993 e 2004 em diversas áreas (veja quadro) e a esperança das pesquisadoras é que possam ser utilizados para orientar a formulação de políticas públicas, além de servirem como instrumento de luta para movimentos sociais.

REALIDADE - Luana aponta que as desigualdades observadas são persistentes em todas as áreas ao longo dos anos e que, apesar do esforço do atual governo em promover a inclusão – com a criação de secretarias com status de ministério, por exemplo -, as mudanças ainda são muito lentas. “O Brasil é racista e o preconceito é velado. As ações de governo para acabar com isso, em forma de políticas públicas, são tímidas perto do que deve ser feito”, lamenta a pesquisadora. Segundo ela, o estudo mostra que a política, como vem sendo feita no país, não se mostra eficiente para incorporar diferentes grupos.

O acesso universal ao ensino, por exemplo, não se traduz em permanência universal. “Para chegarmos à igualdade temos de considerar as diferenças existentes entre os grupos sociais. Tratar os desiguais de maneira igual não traz resultados equilibrados”, avalia Luana. Uma possível solução para o problema são as cotas adotadas por universidades públicas. A pesquisadora acredita que elas reparam erros em processos históricos, porque os negros não conseguem permanecer no sistema educacional como os brancos e, por isso, sua média de anos de estudo é inferior. “É importante lembrar, no entanto, que essas medidas devem ser temporárias. Se assumirmos que precisaremos de cotas para sempre, não faremos nada para mudar essa situação”, afirma.

ÁREAS ESTUDADAS NA PESQUISA

1. Educação
2. Saúde
3. População
4. Renda
5. Pobreza
6. Mercado de trabalho
7. Previdência
8. Trabalho doméstico

EXCLUSÃO DIGITAL

Os dados do estudo apontam que 77% dos domicílios chefiados por brancos não têm acesso a microcomputador, 82% à internet e 44% a telefone celular. No caso das residências de negros, esses números são, respectivamente, de 92%, 95% e 62%.

POBREZA, DISTRIBUIÇÃO E DESIGUALDADE DE RENDA

A pesquisa mostra que 19,5% da população branca situa-se abaixo da linha de pobreza (meio salário mínimo per capita), enquanto 41,7% dos negros encontrava-se na mesma situação. No caso de indigência (menos de um quarto do salário mínimo per capita), a situação é parecida: 6,4% dos brancos estão nessa situação, percentual que sobe para 16,8% na população negra, quase três vezes mais.


Fonte:clique no título

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